quinta-feira, 16 de julho de 2009

ABDICAÇÃO


    Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
    E chama-me teu filho... eu sou um rei
    que voluntariamente abandonei
    O meu trono de sonhos e cansaços.

    Minha espada, pesada a braços lassos,
    Em mão viris e calmas entreguei;
    E meu cetro e coroa - eu os deixei
    Na antecâmara, feitos em pedaços

    Minha cota de malha, tão inútil,
    Minhas esporas de um tinir tão fútil,
    Deixei-as pela fria escadaria.

    Despi a realeza, corpo e alma,
    E regressei à noite antiga e calma
    Como a paisagem ao morrer do dia.

    Fernando Pessoa, 1913