quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ausente...



    Teus olhos entristecem.
    Nem ouves o que digo.
    Dormem, sonham esquecem...
    Não me ouves, e prossigo.

    Digo o que já, de triste,
    Te disse tanta vez...
    Creio que nunca o ouviste
    De tão tua que és.

    Olhas-me de repente
    De um distante impreciso
    Com um olhar ausente.
    Começas um sorriso.

    Continuo a falar.
    Continuas ouvindo
    O que estás a pensar,
    Já quase não sorrindo.

    Até que neste ocioso
    Sumir da tarde fútil,
    Se esfolha silencioso
    O teu sorriso inútil.

    Fernando Pessoa, 19-10-1935